A Cruz
Não é fácil entender por que coisas ruins nos acontecem. Por vezes, duvidamos que Deus, esse Pai misericordioso, possa realmente existir, já que não desce aqui para nos ajudar com os nossos problemas.
Mas lembro que algumas leituras que fiz ao longo da vida ajudaram a formar o meu imaginário sobre como encaramos as dificuldades do dia a dia. Essas leituras são variadas e vão desde a literatura ficcional, como Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, até algo mais teológico, como A Ciência da Cruz, de Edith Stein.
Recordo também que Jó passou por diversas provações e, mesmo assim, manteve-se fiel, e por isso foi recompensado. Mas o que é ser recompensado, ser feliz, estar alegre e satisfeito? É ter estabilidade financeira, conforto material e saúde plena para mim e meus familiares?
Não posso negar que é isso que desejo, são essas coisas que anseio. Então busco em Deus, fazendo minhas orações por saúde e prosperidade. Mas, como uma cobra ardilosa, tento enganar Aquele que tudo sabe, camuflando meus pedidos mais egoístas entre outros mais altruístas, que pouco desejo de verdade:
“Deus, salve minha família, salve minha alma, perdoe meus pecados, faça-se em mim segundo a vossa vontade, dê-me saúde e prosperidade, abençoa minha família e a família dos meus amigos…”
Então dou-me conta de que o que há em mim é vaidade, esse pecado sorrateiro que enche nossos caminhos de armadilhas. É a vontade de ser visto, de ser amado por Ele, mas não pelos motivos certos, e sim para que meus próprios desejos sejam atendidos. Teria isso escapatória? Tudo é vaidade!
Em minhas leituras aprendi que existem dois homens: o interior e o exterior. O primeiro voltado às coisas do espírito, o segundo às coisas materiais. E, na maioria das vezes, fazemos tudo para satisfazer o homem-exterior.
“O homem voltado para o exterior, ou conduzido pelo homem-exterior, não é pura e simplesmente o sensual. É aquele que, mesmo nas coisas do espírito, usa os critérios de exterioridade, como, por exemplo, o professor que quer ‘brilhar’ e o político que quer ‘prestígio’, e também é aquele que, nas coisas da carne, põe o dinamismo do espírito a elas submetido. Todas as perversidades e abusos do sentido são amplificados por uma espécie de glorificação espiritual subvertida.” (Gustavo Corção, Dois Amores, Duas Cidades, Vide Editorial, 2019, p. 52).
Em Teoria do Medalhão, um filho aprende com o pai as formas de parecer ser o que não é. Em O Espelho, também de Assis, um alferes se encanta com sua própria imagem exteriorizada em vestes militares, e o autor nos apresenta a teoria das duas almas: uma exterior e outra interior, sendo que a exterior pode estar em qualquer coisa, em qualquer objeto, sobretudo naqueles que alimentam a vaidade.
Já em O Retrato de Dorian Gray, vemos um homem destruir sua alma para manter as aparências externas, a beleza, a juventude.
As realizações humanas, por vezes, se apresentam sob a melhor roupagem de virtudes cristãs, mas não passam de camuflagem para satisfazer desejos vaidosos. O desejo de ser bem visto, de ser admirado, de ser modelo, exemplo, enfim.
Já me perguntei: por que posto uma bela foto da igreja quando vou à missa? Poderia dizer que é para influenciar pessoas a irem também, ou qualquer outra mentira dessas, mas no fundo é só vaidade, a vontade de mostrar a todos onde estou.
Este texto mesmo tem mais de vaidade do que eu gostaria de admitir.
Difícil mesmo é conectar-se com o homem-interior verdadeiramente. E, sinceramente, desconfio de todos os que dizem que conseguem. Não que mintam deliberadamente, mas porque talvez estejam enganados sobre seus próprios desejos.
Se tudo é vaidade, como diz Eclesiastes, nada humano pode nos curar disso, a não ser a misericórdia divina.
Mas então, o que fazer com essa cruz do dia a dia, com esse medo da vida, dos obstáculos, das armadilhas, das dores e sofrimentos, se tudo o que peço é porque sou vaidoso, exigente e infantil?
Não existe outro caminho senão entregar-se verdadeiramente e seguir como Cristo seguiu com sua cruz: carregando a dor com fé e amor, consciente de que nada conseguirei sozinho; de que caminharei o máximo possível, mas só alcançarei o destino quando Ele me der as mãos.
Deus pode tudo, e a Ele inteiramente devo me entregar. Mas isso não é garantia de que ficarei rico, que não enfrentarei problemas ou que meus entes queridos estarão livres de qualquer enfermidade. E quem disse que deveria ser assim? O Deus encarnado, Cristo, nosso Senhor, não fez nada para impedir sua própria dor e sofrimento. Esse mesmo Deus não veio ao mundo como homem para usufruir das riquezas materiais! Quem sou eu para exigir algo diferente?
Entregar-se inteiramente aos desígnios de Deus é absurdamente difícil; se fosse fácil, todos seríamos santos.
Não é fácil, mas aprender a carregar a própria cruz com alegria é o caminho que vejo para uma vida livre da angústia, porque livre de dor é impossível.
